Museu nacional: as histórias por trás das relíquias perdidas no incêndio

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O RIO de Manifestantes começou às 6 horas desta segunda-feira, 28, uma nova ocupação no entorno do prédio onde mora o governador Sérgio Cabral (PMDB), no Leblon, zona sul do Rio de janeiro. O grupo, que no momento é composta de 12 pessoas, é instalado no canteiro central da Avenida Delfim Moreira, próximo ao Posto 12, Praia do Leblon, na altura da rua Cabral, Aristides Espínola. Eles esperam que os novos membros durante todo o dia, incluindo os professores insatisfeitos com o acordo entre os sindicatos da categoria e o governo do Estado.

A intenção, de acordo com um dos manifestantes, é permanecer no local até o final do ano. Na chegada, o grupo foi abordado por policiais militares – eles avisaram que não será permitido acampar no local. Os manifestantes disseram que eles não poderiam montar as tendas. “Esta ocupação não é contra o governador Sérgio Cabral, está contra ele, o prefeito Eduardo Paes (PMDB) e todo o sistema político do Rio”, disse um dos membros, que não quis ser identificado.

Os manifestantes são na sua maioria estudantes, de várias regiões da cidade e da Baixada Fluminense. Alguns tinham participado no “Ocupar a Câmara”, na Cinelândia, e a “Ocupar Cabral” anteriores, no mesmo local. O campo, na Delfim Moreira, agora chamado de “Ocupar, no Leblon” já foi desmontado duas vezes – primeiro por que a polícia, e a última por decisão dos manifestantes, depois de 40 dias, no início de setembro. Na parte da manhã, o grupo começou a receber as primeiras doações de água e alimentos.

“A coleção de meteoritos tinha mais de 800 cópias,” diz a pesquisadora Renata Schaan, que tem um mestrado em património geopaleontológico no Museu Nacional – e é um especialista em meteoritos. “Foram longas partes em milimétricas e exclusivos – tais como o meteorito Angra dos Reis, que deu nome a uma categoria de meteoritos chamado angritos – up partes enorme e histórica, como o meteorito de Bendegó. O Bendegó foi exposto na entrada do museu e foi trazido de buggy da Bahia para o Rio de Janeiro em 1888.”

O Bendegó foi descoberta em 1784 por um rapaz que cuidava do gado em uma fazenda nos arredores de monte Santo, sertão da Bahia. A notícia do achado viajou o mundo, chegando aos ouvidos do governador D. Rodrigues Menezes, que em 1785 ordenou o carro para o Salvador. Tentei removê-lo com 24 bois, junta, em pares, mas não funcionou: o boulder cósmica rolou morrou abaixo e pousou em um local a apenas 180 metros de onde ele foi encontrado. Lá ele ficou por mais de 100 anos.

Foi somente sob o governo de Dom Pedro II, em 1888, que a pedra foi finalmente mudou-se para o Museu Nacional. O imperador era um apaixonado por ciência, e promoveu uma marcha de 126 dias no matagal para levar a relíquia para a estação ferroviária de Jacurici, da estrada de ferro de são Francisco, a 108 km de distância.

O jornal O Globo publicou uma foto de um meteorito enorme, que tem vencido as chamas – a julgar pelo formato e o tipo de pedestal em que é suporte, é outra peça, sem relação com o Bendegó. É muito provável que o Bendegó, como ele, tenha sobrevivido. O problema é que as cópias são de grande raridade, e o menor, de apenas alguns centímetros, quase de certeza que será perdido entre os escombros.

Atualização: de acordo com o G1, o vice-diretor do Museu Nacional, Cristiana Serejo, disse em uma conferência de imprensa na tarde desta segunda-feira (3) que os meteoritos do edifício principal são seguros.

tinha um meteorito de Marte que foi em uma pequena caixa com um furo p tocar nele, e tinha escrito “toque marciana” pic.twitter.com/2NNvCQbiVI

— clara (@gothtrash666) 3 de setembro 2018

Schaan, explicou à SUPER que apenas partes se mostrado valiosa vir para a coleção do museu: “Um material, para se tornar parte de uma coleção científica, você já tem que ter valor. A dica de mais de uma amostra, ela deve ser único e não ser mais amplamente disponíveis na natureza, tem valor histórico e científico, para caracterizar uma espécie (biológicos, minerais rochosos, etc.), estar contidos em publicações científicas ou ser potencialmente utilizados em estudos futuros.” Além das peças em exposição e das coleções, o prédio também continha todo o equipamento de investigação, tais como microscópios.

Esse dinossauro, chamado de Santanaraptor. E os outros 10 mil de espécimes fossilizados
Santanaraptor
Santanaraptor
o esqueleto é uma reconstrução e não o original, que foi exposta no Museu.
Este esqueleto é uma reconstrução e não o original, que foi exposta no Museu. (Kabacchi/CC BY 2.0/Wikimedia Commons)

“Na última atualização que eu vi, eu acredito que, em 2016 –, a coleção de paleovertebrados continham cerca de 10 mil amostras”, diz Helena de Bastos Cruz Machado. Ela analisou fósseis de cavalos disponíveis no museu em seu mestrado e, agora, a fazer um doutoramento na Universidade de Oregon, EUA. É importante explicar que uma amostra (com “m”) é diferente de um tipo. “A amostra é como nós chamamos cada pedaço de fossilizadas”, explica Machado. “Um espécime pode ser um dente isolado, um fragmento de osso, um crânio completo, etc. Ou, você pode ter vários espécimes preservados de uma espécie só.”

Em outras palavras, que o museu contém mais de 10 mil peças de seres vivos fossilizados – e, às vezes, mais do que uma peça pertencia a um único ser vivo.

Vários destes espécimes foram holótipos, outro nome complicado. Um holótipo é o fóssil (ou fósseis), em que o pesquisador, para descrever uma espécie pela primeira vez. Quando outros fósseis do mesmo animal são encontradas, é o holótipo, que serve como uma referência para classificá-los. Às vezes, o holótipo é o único exemplar da espécie que existe. É o caso do Santanaraptor que você vê lá em cima, encontrados e identificados pela paleontologia de vertebrados do Museu Nacional. O pterossauro nome científico Anhanguera blittersdorff também foi uma peça única.

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1200px Preguiças gigantes e o tigre dentes de sabre 02

– (Dornicke/Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0))

“Além dos holótipos ainda teve inúmeras incríveis animais, fósseis tigre-dente-de-sabre, preguiças gigantes, como Eremotherium [foto acima], foi a enorme Maxakalissaurus [foto abaixo], etc.”, enumera o Machado. “Eu tinha uma enorme coleção de peixes do Cretáceo do Nordeste do Brasil, tartarugas absurdamente bem preservado de São Paulo, pterossauros também do Nordeste do Brasil, vários dinossauros do mesozóico e os mamíferos do cenozóico… Apenas uma parte pequena deste foi exposta no Museu, na casa das dezenas.”

1200px Titanossoauro (réplica) MN UFRJ 02

Schaan disse que alguns fósseis pode ter salvo por estar em um laboratório subterrâneo. “O Museu tem alguns outros edifícios e o Palácio. A parte principal de preparação de fósseis de vertebrados, por exemplo, está no porão, próximo ao Palácio. Talvez esta parte tem sido preservada. A preparação é uma coisa que requer muito tempo e paciência, para que as peças, muitas vezes, passam uma quantidade de tempo considerável.”

O zoólogo Paulo Buckup, que cuidou da coleção de peixes, foi um dos pesquisadores que entraram com os bombeiros no prédio no início do fogo, para resgatar alguns dos itens. Ele publicou o relatório abaixo em seu Facebook. Os pesquisadores consultados pelo SUPER afirmou que a coleção de vertebrados a que ele se refere são os esqueletos de animais contemporâneos, que estavam em outro prédio – e não estão relacionados com os esqueletos fossilizados, que foram atingidos pelo fogo.

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widget-notícias-polegar mini” href=”https://super.abril.com.br/ciencia/luzia-a-vitima-mais-preciosa-do-incendio-no-museu-nacional/” rel=”bookmark”>Os verdadeiros descobridores da Americaa CiênciaLuzia: a vítima, mais precioso do incêndio no Museu Nacionalquery_builder 24 de julho de 2017 – 16h07
Edição de 1481 da Naturalis Historia de Plínio o velho e outras obras raras
A biblioteca do Museu Nacional foi inaugurado em 1863. Ele é um dos maiores da América latina, especializando-se em ciências naturais e antropológicas. Hoje, eles são 474.866 volumes, incluindo livros, periódicos, CDs, DVDs, folhetos, materiais iconográficos e cartográficos e outras publicações dos últimos séculos.

O acervo foi dividido entre o edifício do Palácio e um edifício separado, que ficava no mesmo terreno. O SUPER ainda não pôde verificar que os edifícios foram os volumes mais antigos e valiosos, e se eles foram ou não foram afetados pelo fogo.

Atualização: o vice-diretor do Museu Nacional, Cristiana Serejo, disse em uma conferência de imprensa na tarde desta segunda-feira (3) que uma boa parte das obras da biblioteca, foram localizados em outro prédio, que não foi afetada pelas chamas.

Além da Naturalis Historia – o livro mais antigo da coleção – há também uma edição em latim Novus Orbis sua descriptionis Desertificação Occidentalis, 1633. O trabalho, uma descrição do recém-descoberta América, foi escrito pelo geógrafo Johannes de Laet, que era o diretor da diretor da Companhia holandesa das índias ocidentais. Há também uma cópia da Description de L’egypte – um marco da egiptologia, foi concebido durante a invasão de Napoleão no Egito (1798-1801).

Mas nem tudo está perdido. Pelo menos não para o fogo: em 2016, mais de 300 obras raras, que incluiu a 16 volumes da primeira edição dos Sermões de padre Antônio Vieira (1679), e Expédition dans les partes centrales de l’amérique du Sud (1850-1859), o naturalista inglês Francis de Castelnau, com centenas de litografias pintados à mão, foram roubados da biblioteca. Eles não estavam no museu, portanto, no momento do incêndio.

Múmias 100% brasileira
Uma das atrações mais populares do museu foram suas múmias. Sim, alguns eram clássico de múmias egípcias. Outros foram romano. Mas o Museu Nacional foi o lar de algumas das raras múmias amazon (que você pode saber sobre eles neste post – o SUPER-dedicado totalmente para o emablsamados).

Um dos exemplos impressionantes armazenados no museu, eram as pessoas que Jívaro da Amazônia Equatoriana – especialistas em mumificar cabeças. Os pêlos de seus corpos foram mantidos, e a extração do crânio foi feita de modo a manter ao máximo a fisionomia do defunto. Para se ter uma idéia do tamanho da conquista, apenas para lembrar que a Amazônia não é o clima ideal para a preservação de nada. Com um calor e a umidade tão grande, imagine a dificuldade que foi a manutenção de um cadáver.

Múmia de cabeça Povo Jivaro 01 –

– (Dornicke/Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0))

Quer múmia mineirinha? Tinha também. Um grupo encontrado em uma fazenda de café, na Caverna de Babilônia, em Minas Gerais, que incluiu uma mulher mumificada e dois bebês, que pertencem a tribos indígenas maxacalis, camacãs, ou manukis. Os corpos preservados foram doados pelos proprietários da fazenda de café onde foram encontradas a D. Pedro II, que redirecionado os resultados para o Museu.

Ao que tudo indica, todas as peças de antropologia e etnologia, que estavam em exposição, incluindo estes foram destruídos.

pic.twitter.com/UV3dxMRPYn

— Marcella ama Sabrina (@dilaureson) 3 de setembro 2018

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MúmiaHistóriamúmias digno de cinema do Museu Nacionalquery_builder 3 de setembro de 2018 – 18h09
Múmias dos andes
Na coleção de múmias, o Museu Nacional também continha os corpos dos nossos vizinhos do deserto de Atacama. A mais famosa é conhecida como a múmia atacamenha de Chiu Chiu.

681px Mumiaatacama –

– (Agência Brasil/Fernando Frazão/Creativecommons.org/Wikimedia Commons)

O homem que se tornou a múmia teria vivido há quatro mil anos. Morreu com cerca de 40 anos de idade e foi mumificado, bem como, através de sentar e abraçando os joelhos.

Ninguém sabe se o corpo da múmia de Chiu Chiu morreu nessa posição. Era comum enterrar os mortos, mumificados e encolhidinhos bem – na medida em que as condições da morte permitido, claro.

A posição, aliás, é semelhante ao encontrado em a múmia Aymara, outra relíquia do Museu Nacional, encontrado perto do Lago Titicaca, localizado entre o Peru e a Bolívia. Esta outra múmia nos andes foi também um adulto do sexo masculino, que morreram entre 30 e 40 anos. O corpo preservado foi encontrado (que foi exposto) com um cobertor vestido sobre o corpo encolhido. Abaixo dela, o rapaz está sentado com os joelhos no queixo – e o corpo foi amarrado nesta posição. Finalmente, chegou o tecido, o que deixou os pés e o rosto.

Múmia Aymara do sexo masculino –

– (Museu nacional/UFRJ/Reprodução)

A assinatura de Marie Curie, em o livro de visitantes
Einstein não foi o único visitante para o famoso Museu Nacional – apesar de sua foto na porta do edifício tem de viralizado hoje cedo. A foto abaixo é o tweet de um pesquisador que trabalhou no museu. Clicando nele, você pode ver outras imagens de peças do museu – como esqueletos de uma girafa e um elefante, ou uma armadura de Samurai.